terça-feira, 28 de dezembro de 2010

NEGO DA BAÍA – Esse era um homem bom. (publicado no Jornal "O Catarinense" em 2007).

Em um curso de pós-graduação em Gestão e Direito Ambiental de que participei, um dos ensinamentos que mais me impressionou foi justamente a visão que se pode ter da imensidão do Universo, constatando-se que a terra, na sinfonia do Universo, é uma microscópica parte desse todo. Na extrema pequenez coabitam todos os seres vivos com suas existências adaptadas às condições desse Cosmos. O homem sobressai-se pelo seu potencial de raciocínio.  Sim, sua capacidade interpretativa acima do ponto médio das demais criaturas faz com que ele domine o seu meio ambiente, resultando daí, em sua maioria das vezes, degradações que fazem com que o ser humano e todas as demais criaturas habitantes desse Cosmos venham cada vez mais padecer.
O ser humano, em sua sapiência, é quem mais interfere nessa relação, trazendo em seu intelecto as raízes amargas dos preconceitos, espalhando o mal estar do convívio que transforma iguais em desiguais.
Devemos sempre nos preocupar em tratarmos a todos como nossos iguais. Os fatores econômicos, sociais, culturais não devem ser elementos que nos dividam porquanto esses mesmos fatores poderão ter pesos diferenciados, dependendo da cultura de quem os analisa.
No nosso interior de Fraiburgo sempre temos pessoas realmente peculiares, com belezas extremadas em seus semblantes, seus corações e suas almas.
Assim foi o cidadão AVELINO PEREIRA, mais conhecido como NEGO DA BAÍA.
Desejo, por esse breve escrito, consignar toda a minha admiração para com esse caboclo que viveu quase que uma vida toda numa localidade agreste, do nosso interior de Fraiburgo, mais precisamente na localidade da Baía, próxima ao Barro Preto.
Nego da Baía foi o caboclo que sempre soube cultivar aquilo que melhor pode exprimir a pessoa de alma pura.  Teve seu inicio de vida na faina do seu dia a dia permeado de trabalho árduo para os fazendeiros da localidade e com os quais conviveu em meio aos galpões mal cheirosos de proteção dos muares, eqüinos e outros de menor porte. Nego da Baía sempre teve a grande inteligência de saber moldar-se às agruras do meio ambiente em que sempre conviveu. Sempre foi amigo leal. Companheiro para todas as horas. Um perfeito gentleman para com aqueles que o bem tratava.
Nego da Baía foi transformando seu pequeno rancho inicial numa simples casa e mais tarde num lar anexo a um pequeno estabelecimento comercial onde, juntamente com sua querida esposa criou muitos filhos. Vem-me sempre a imagem daquela casa lá no ponto mais alto da localidade como que despontando para avisar a todos que por aquela paragem viessem que desde que viessem em paz seriam bem recebidos por todos daquela casa. Naquele lar vi crianças pobres, mas extremamente sadias, lá comprovei a seriedade de crianças, jovens e adultos comparecerem diante do pai, Nego da Baía – Sr. Avelino Pereira – e, de mãos postas como que para orar e pedir “sua benção meu pai”.
Naquela casa, lá em cima do morro, por incontáveis vezes, sentei-me atrás do fogão de lenha para saborear aqueles pinhões catados ao chão nos pinheirais da redondeza.
Naquela mesma casa participei de inúmeras rodadas de chimarrão, jogando conversa fora, jogando alegres rodadas de truco, bebericando uma cachacinha branca, pitando muitas vezes um palheiro fino caprichosamente confeccionado pelo dono da casa.
Nego da Baía era um homem de estatura do tipo “bujãonzinho” tendo como característica maior ser amigo dos seus amigos. Em sua casa sempre havia lugar para mais um, sendo que lá moraram infindáveis trabalhadores braçais, caboclos das lidas campeiras.
Seu Avelino conquistou a profunda admiração e respeito de todos os seus filhos pelas atitudes simples do seu ser, dando-lhes o exemplo nos atos simples. Conquistou amigos absolutamente sinceros porque sempre soube cultuar a lealdade para com seus amigos o respeito para com seus adversários e reconhecimento de sua liderança para com os que ele conviveram. Nego da Baía sempre participou ativamente de todas as grandes iniciativas de Fraiburgo sendo que a política corria em suas veias, enfim NEGO DA BAÍA fez a diferença enquanto viveu nesse mundo pelo seu exemplo de vida, pela sua lealdade para com os amigos, pelo seu exemplo de convívio familiar. Nego da Baía foi um caboclo com quem tive muito orgulho em ter sido seu amigo e com ele ter convivido. Fica na paz do Senhor, amigo Nego, teu exemplo será eterno.

Um comentário:

Raquel disse...

Esse artigo é muito bonito!
O Sr. descreve Nego da Baía com riqueza de detalhes...que parece que o estamos vendo!
Belíssimo!
Dr. Flávio o Sr é dono de uma alma nobre!
Adorei!