O mundo da poesia é tão belo, por que não é real?
Nos idos tempos das décadas primeiras de meu viver, quando comecei ver aquele meu pequeno mundo com meus próprios olhares via-o colorido porque coloridas eram minhas histórias. Meu pequeno mundo, nos anos cinqüenta, resumia-se a histórias de um menino franzino correndo pelas ruas, pelas áreas “empotreiradas” e pelas roças de pequenos agricultores da então vila de Arroio Trinta.
Lá, numa das Escolas Reunidas, nos reuníamos na companhia de todas as crianças e adolescentes. Aprendemos, além dos ensinamentos de professores interioranos que transmitiam o saber com alma e com o coração. Aprendemos, nos sábados matinais e obrigatórios, em formação quase que militar, participar de horários cívicos com o hasteamento da bandeira nacional, mão direita sobre o coração, cantávamos com espírito verdadeiramente patriótico todos os hinos. O hino Nacional - hino da independência – hino a bandeira. Não havia sequer um aluno na escola que se poderia imaginar que não soubesse qualquer um desses tributos a Pátria.
Naquela época éramos desprovidos dos meios de comunicação existentes hodiernamente. Nossa imaginação limitava-se ao nosso pequeno mundo. Sim, pequeno mundo porque nossa única comunicação com o mundo dava-se pelas ondas curtas dos rádios religiosamente instalados em locais privilegiados que poderiam ser ouvidos da maneira mais confortável possível, primeiramente aos nossos pais e, depois, em segundo plano a nós os filhos. Como era bom aquele tempo em que nada ouvíamos de criminalidade, de roubos, nepotismos. O máximo de maldade que sabíamos fazer era roubar as laranjas dos quintais dos visinhos.
Nossa imaginação era colorida porque sonhávamos acordados quando podíamos brincar de médico. Sim de médico porque em nossas escolas aprendíamos a tratar sobre os primeiros socorros. Lembro-me de quão orgulhosos saíamos da escola, em pleno turno de aprendizado, vestidos em guarda-pó branco com a enorme cruz vermelha no peito, caixa de primeiros socorros e lá íamos normalmente um casal de alunos, rumo a residência do aluno faltante para prestar-lhe os primeiros socorros. Naturalmente que em nada contribuíamos com a melhoria da saúde de nosso companheiro convalescente, no entanto de lá saíamos com a certeza de termos contribuído decisivamente com sua melhora.
Hoje vejo quão úteis foram aqueles ensinamentos. A melhoria real sempre foi em nossa alma. O espírito solidário e aprendizado indireto permaneceram indelevelmente gravados em nossos espíritos.
A poesia da alma leve sempre soube estar presente na mente daqueles que sabem sonhar, daqueles que sabem entender o mundo ideal de nossas existências. Naquele tempo aprendíamos a poesia como ensinamento outro qualquer. Todos sabíamos os clássicos “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”. Sabíamos de Castro Alves em seu celebrado e concelebrado O NAVIO NEGREIRO - “Stamos em pleno mar ... doudo no espaço brinca o luar – dourada borboleta; e as vagas após ele correm ... cansam como turba de infantes inquieta. Stamos em pleno mar ...”
Os poetas dos dias modernos também sonham porque a poesia os faz sonhar. Assim sonha Dante Ramon Ledesma: “Quando o homem veio e desceu da cruz o cimento bruto transformou-se em pão. As pessoas riam sem fechar a boca. Nobres carrancudos não, não disseram não, mas se entrelaçaram numa roda grande parecendo luz de um disco voador. Nessas mãos macias não havia chagas só botões de rosas pra cantar o amor.
Quantas pombas necessita o mundo para que o homem volte a acreditar na paz
Quantos inocentes terão a morte até que alguém encontre um sonho novo para a liberdade.
Quantos Chico Mendes chorarão o Amazonas ou quantos Che Guevarras pela ternura lutarão para que Ghandi plante nesta terra o amor. Necessitamos paz. É para todos que eu canto de todos os continentes, arrastando inocentes que sua história deixou para atrás”
Sim, como é belo o mundo que imaginamos em nossas mentes poéticas onde vemos um mundo colorido. Combatamos com nossas manifestações corajosas aqueles que denigrem nossos mundos coloridos, nossos mundos de águas límpidas e de homens honestos.
Um comentário:
A cada dia me surpreendes Dr Flávio...
Tens uma capacidade de descrever os cenários que somos transportados para esse mundo vivido pelo Sr...
Lindoooooooooo!
Bjus
Postar um comentário