Como eu sinto saudade de minha mãe. Era uma senhora baixinha de olhos azulados (interessante porque as vezes eram castanhos) - como ela era linda - minha mãe era gordinha mas sem barriga, tipo "tanquinho" - como era linda a minha mãe - minha mãe era o protótipo da mulher simples, da mulher bondosa, daquela mulher que falava com os olhos porque o olhar de minha querida mãe traduzia os seus sentimentos sem que ela falasse - ahh como era linda a minha mãe.
Minha mãe muito chorava ao ver-me depois de um certo tempo sem nos encontrarmos. Chorava de amor por mim. Chorava ao ver-me chegando, chorava ao ver-me contente. Chorava ao ver-me crescendo em minha vida profissional - ahh como era linda a minha mãe - como eu gostava quando minha mãe, orgulhosamente, dizia para as suas amigas, para as suas comadres, que eu era o melhor filho do mundo. Como eu me envergonhava, mas no fundo muito gostava quando a minha mãe dizia às suas amigas que eu era lindo - ahh como era linda a minha mãe.
Mais tarde a experiência da vida mostrou-me que todas as mães do mundo dizem que seus filhos são os mais belos, que seus filhos são os melhores.
Ahh como era linda a minha querida mãe. De quando em vez, aos sessenta e seis anos de idade, ainda sonho acordado com minha querida mãe. Vejo claramente, no meu passado, a imagem de minha mãe na janela a chamar-me para voltar para casa para fazer o meu trabalho de todo o dia - mexer a polenta - alimento esse que era a base cotidiana de nossas refeições. Ahh quantas vezes apanhei de minha mãe pela preguiça de mal "mexer a minha polenta" de cada dia. Quantas vezes a "mescola" (pá de madeira própria para mexer a polenta) foi lançada em minha cabeça - minhas costas - em meu corpo - com a força suficiente para lembrar-me que eu era responsável para fazer com que aquela polenta saísse no ponto exato de seu cozimento - ahh quanta saudade de minha querida mãe.
Minha mãe tinha sempre perto de si o melhor instrumento de convencimento e de imposição de respeito para com os seus pais, que era a "milagrosa vara de marmelo". Essa vara de marmelo operava verdadeiros milagres. Minha querida mãe não precisava falar muito comigo. Minha mãe não precisava mandar-me muitas vezes lavar os pés, tomar o banho, assentar-me a mesa para as refeições. Não, não precisava pedir muito. Eu não atendendo aos seus pedidos bastava que se dirigisse rumo a milagrosa "vara de marmelo" que eu a tudo entendia e a tudo obedecia prontamente. Tudo isso acontecia porque eu tenho o claro conhecimento do ardor dessa vara de marmelo oriundo dos vergões em minha bunda.
Interessante - eu e todas as crianças e jovens de minha geração fomos criados com a "vara de marmelo", "vara de vime" e outros instrumentos de convencimento assemelhados, colocados em pontos estratégicos pelos nossos pais para utiliza-los nos momentos necessários em nossos atos que não eram bem o seus atos desejados - interessante não temos traumas por maus tratos. Aliás, esses instrumentos eram mais utilizados pelas nossas mães porque era com elas que ficávamos no correr do dia todo. Ahhh como era linda e bondosa a minha mãe - ela era tão bondosa que quando se preparava para visitar suas comadres, colocava em mim a melhor roupinha, aquela camisinha curtinha e apertadinha que ela mesmo fizera - aquela calça curta de armarinho comprada na "venda" - suspensórios do mesmo tecido - sem cueca (aliás, até hoje, não tenho lembrança quando comecei usar cuecas) pés descalços e alimentava-me bem e sob o convencimento da "vara de marmelo" para que eu não chegasse na casa da vizinha e pedisse comida - ledo engano - pois quando lá chegava conduzido pela mão por minha mãe - todo lindo - camisinha limpa - calcinha curta - suspensórios de pano com formato em "X" no peito - pés descalços mas limpos - cabelos molhados e bem penteados do lado esquerdo para o direito, a primeira conversa minha era que eu não tinha comido "chimia". Ahh como era bacana a minha mãe. Minha mãe era o exemplo da bondade para comigo, com meus irmãos, e com todos que a procuravam. Criei-me numa familia muito pobre, residindo nos primeiros e mais importantes anos de minha vida na cidade de Arroio Trinta, mas minha mãe sempre soube distribuir o seu amor como todos nós, os seus oito filhos. Cresci sentindo o sabor do amor materno, o doce enlevo de um colo aquecido pelo amor desmesurado, a pureza das coisas simples e a suavidade do pouco, dado com muito amor. - ahh que saudade de minha querida mãe. Muito obrigado mãe pelo teu exemplo de vida simples onde as ambições do "sempre mais" não tiveram morada. Parabéns querida pelo DIA DAS MÃES. Benção mãe.
publicado no jornal O CATARINENSE - ano XI - nº 518 - 06/05/2011.
publicado no jornal O CATARINENSE - ano XI - nº 518 - 06/05/2011.
Um comentário:
Encantador esse artigo Dr.Flavio!
Nao tem ideia de como derramei minhas lagrimas , mas tbm ri muito como o Sr. mexia muito bem sua polenta, caso contrario a vara de marmelo pegava mesmo!
Maravilhoso o Sr. lembrar tudo isso com saudades!
Quem dera tivessemos nossas maes ainda por aqui, para poder beijar-lhes muito e dizer o qto a amavamos!
Adorei... o Sr. eh uma caixinha de surpresas!
Abraços!
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